Julia Lima de Oliveira E Gisele Aparecida Lima de Oliveira

Conto: É só de vez em quando

Postado em 03 de setembro de 2025 Por Gisele Aparecida Lima de Oliveira Advogada, palestrante e administradora. Especialista em Direitos das Mulheres e em LGPD, Privacidade e Proteção de Dados. Membro da Comissão de Privacidade, Proteção de Dados e Inteligência Artificial e da Comissão de Defesa dos Direitos das Crianças e Adolescentes da OAB SP, além de integrar a Comissão de Direitos Humanos da OAB Bauru. Voluntária no Programa OAB por Elas, prestando orientação jurídica gratuita a mulheres em situação de violência. Autora de artigos sobre direitos humanos, violência digital e de gênero.Por Julia Lima de Oliveira Graduanda em Direito, Estagiária do Ministério Público Federal do estado de São Paulo. Integrante das Comissões de Direitos da Defesa Criança e do Adolescente, Direito de Família da OAB São Paulo, Comissão de Direitos Humanos da OAB Bauru. Autora de artigos sobre crianças e adolescentes e perspectiva de gênero.

Raquel, hoje com vinte e dois anos, era casada há três, mas a história com o homem ao seu lado já se estendia por quase uma década. Começaram a namorar cedo, ainda na adolescência, e ele foi seu primeiro e único namorado. Apesar de outros meninos terem demonstrado interesse por ela na época da escola, afinal, sempre foi uma moça de beleza marcante, com um sorriso fácil e olhos curiosos, ela nunca namorou outro. Ele era o único a quem sua vida parecia pertencer, pelo menos era o que pensava aquele coração adolescente.

Às vezes, brigavam. As discussões, que no início pareciam pequenas, eram sempre sobre o mesmo tema: controle. Mesmo estudando juntos, ele queria passar mais tempo com ela, pedia que faltasse às aulas para ficar com ele, que ficasse com ele nos intervalos, longe dos olhares alheios. Se ela se recusava, um silêncio pesado caía entre eles, e ele se fechava em uma tristeza manipuladora, que a fazia sentir-se a pior pessoa do mundo.

Ela pensou em terminar algumas vezes, com o coração apertado pela intuição de que algo não estava certo. Mas ele era mestre em inverter a situação. Dizia que não poderia viver sem ela, que ela era o amor da vida dele e sem ela preferia não viver, beirando a ameaça velada. Achando tudo muito romântico, essa forma intensa que ele a amava, pensando que aqueles ciúmes doentios eram, de fato, uma prova de amor profundo, ela cedia aos pedidos dele. Cada “não” virava um “sim” por medo de vê-lo sofrer ou de sofrer as consequências de sua suposta recusa.

Ela tinha a alma cheia de sonhos: a maternidade, uma carreira que a realizasse, a aventura de conhecer o mundo. Mas, ali, naquela tarde abafada, sentada na varanda e conversando com sua vizinha, as palavras saíram em um sussurro quase inaudível: “É só de vez em quando. É só quando ele está muito nervoso.” Uma frase repetida, quase um mantra, para justificar o injustificável.

Foi assim que Raquel respondeu à vizinha, que, com um olhar preocupado, perguntou sobre mais um hematoma roxo que marcava seu braço. Raquel havia esquecido de escondê-lo, um deslize em sua rotina de camuflagem. Sempre usava blusas de manga comprida, mesmo em dias quentes, vestidos longos, qualquer coisa que pudesse cobrir as marcas indesejáveis.

A vizinha, Dona Lúcia, uma senhora de olhos amáveis e rugas de preocupação que pareciam ter se aprofundado com o tempo, apenas assentiu, mas o olhar dizia mais do que as palavras evasivas de Raquel. Não era a primeira vez que Dona Lúcia demonstrava preocupação; já havia visto outras marcas, outros hematomas, e notava que, apesar da pouca idade, Raquel tinha um olhar triste e cansado, um brilho que parecia ter se apagado.

Queria ajudar, a alma de avó aflita, mas sempre recebia uma justificativa pronta para aquelas marcas, uma desculpa que parecia ensaiada: “O trabalho dele é muito cansativo, o chefe dele pega muito no pé” ou “O time dele perdeu e ele está chateado”. Dona Lúcia não insistia nas perguntas, notando o desconforto e o pavor nos olhos da jovem, um medo que paralisava qualquer tentativa de diálogo mais profundo.

Raquel dizia para si mesma e, quando perguntada, para os poucos que ainda se importavam, que o marido só “batia de vez em quando”. Que nunca deixava marcas visíveis ou que não pudesse ser escondida. Às vezes, apertava seu pulso com força até sentir os ossos rangerem, deixando marcas roxas que demoravam a sumir. Outras vezes, empurrava-a contra a parede com uma brutalidade fria, fazendo-a sentir o impacto e o temor da próxima ação. Ou arremessava um objeto qualquer que estivesse ao alcance da mão, um controle remoto, um livro, um copo vazio.

Mas nunca era como nos filmes e nas novelas, ela pensava, tentando se convencer, tentando justificar, tentando normalizar. Não tinha sangue escorrendo, nem gritos desesperados que o bairro inteiro escutasse e chamasse a polícia. Não havia a cena dramática. Só o silêncio que crescia dentro dela, um eco vazio que preenchia cada canto de sua alma e a fazia questionar a própria sanidade. Um silêncio ensurdecedor, que pesava mais do que qualquer grito, mais do que qualquer dor física. Era a dor da alma, da essência, da identidade roubada.

E realmente não era todos os dias. Havia dias em que ele chegava e a abraçava, enchia-a de beijos, dizia que a amava e mataria por ela. Nesses bons dias, que se tornavam cada vez mais raros, ela até esquecia um pouco do sofrimento. Ele a levava para jantar, comprava um pequeno presente, pedia desculpas pelo “mau humor” dos dias anteriores, prometia que “mudaria”, que “seria diferente”.

Raquel, em sua busca desesperada por amor e normalidade, pensava que era normal isso, afinal todo casamento tem dias bons e ruins, que tipo de mulher seria se desistisse e abandonasse seu marido na primeira dificuldade. A culpa por esses pensamentos de “desistir” já a fazia se sentir pior, exausta, sem ânimo para lutar. Pena, que passava logo, os dias ruins eram cada vez mais comuns, quase que constantes. O ciclo de violência se apertava, e ela mal percebia que a “lua de mel” entre as agressões era apenas uma forma de mantê-la presa.

Ele dizia que ela não precisava trabalhar. Que já bastava ele dar conta das contas da casa, que o papel da mulher era cuidar do lar, que foi assim com seu pai e com ele não seria diferente. Ele, o provedor, o “homem da casa”, e ela, a cuidadora, a dona de casa. Uma narrativa que a sufocava lentamente. E Raquel, que sonhava em ser cabeleireira, em ter seu próprio salão, em criar e transformar, em expressar sua arte através das tesouras e dos pincéis, foi engavetando sonhos, um a um.

Primeiro, o curso que tanto queria fazer. Ele desaprovou, dizendo que “custava caro” e que ela “não tinha talento para isso”. Depois, os poucos atendimentos que conseguia fazer escondido em casa quando ele não estava, com a porta trancada e o coração acelerado pelo medo de ser descoberta.

Por fim, as próprias vontades, os desejos mais profundos, principalmente o de ser mãe. Ele dizia que não queria dividir a atenção dela com outra pessoa, que já a amava demais e ela não precisava de mais ninguém além dele. “Eu sou o suficiente para você”, ele repetia, com um sorriso de superioridade, e ela, exausta, acabava concordando, sentindo uma parte de si mesma morrer a cada concessão. O sonho da maternidade foi guardado, sufocado, junto com todos os outros.

Ela não escolhia mais a roupa que vestia. Segundo ele, ela tinha um gosto duvidoso e era uma sorte que ele se preocupasse tanto com ela, com sua imagem, com o que os outros pensavam dela. Uma preocupação que se transformava em controle absoluto. Se saísse de batom vermelho, ele dizia que era vulgar, que não precisava de maquiagem, que o natural era melhor, mais puro, como se ela fosse uma tela em branco a ser pintada por ele.

Se usasse jeans, ele reclamava que apertava demais, que marcava o corpo de forma indecente, atraindo olhares indesejados. E assim, para evitar as discussões, os olhares de desaprovação, as ironias que cortavam mais do que qualquer faca, ela escolhia vestidos largos, neutros, em tons apagados, como ele preferia. Roupas que a tornavam invisível, que a faziam desaparecer na paisagem monótona que sua vida se tornava. Roupas que eram, na verdade, uma gaiola.

As amigas, antes tão presentes, pararam de ligar. Já não a chamavam mais para sair, não vinham visitar, apenas se afastaram com o tempo, como folhas secas levadas pelo vento, sem que ela entendesse bem o porquê. Ela sentia falta, uma pontada de solidão, mas ele tinha a resposta pronta. Dizia que eram invejosas, que falavam mal dela pelas costas e que, com amigas assim, era melhor não ter nenhuma. “Raquel, você é inocente demais para perceber”, ele sussurrava, com uma falsa preocupação, “mas eu estou aqui para protegê-la e alertá-la. Eu sou seu porto seguro. A única pessoa em quem você pode confiar de verdade.” Com o tempo, com a repetição incessante dessas mentiras, ela acreditou. E ficou só. A solidão era uma manta pesada, sufocante, que a isolava do mundo e de qualquer ajuda externa.

Sozinha. Calada. Apagada.

Longe da família, por escolha dele, não tinha para onde correr, nem a quem recorrer. Logo que se casaram, mudaram de estado, para uma cidade onde ela não conhecia ninguém, sem a rede de apoio de parentes e amigos que tinha antes. As visitas, que antes eram poucas, ficaram cada vez mais difíceis pela distância, pelas desculpas esfarrapadas que ele inventava para evitar que ela viajasse ou recebesse visitas. “Não temos dinheiro”, “Não tenho tempo”, “Sua família só te coloca ideias na cabeça”.

Começou a pensar que aquilo era amor com “gênio forte”. Que ela precisava ser mais paciente e compreender o jeito dele de amar, um amor possessivo, controlador, que se manifestava em ciúmes, raiva e agressões. Que talvez ela estivesse exagerando, que a culpa era dela por não entender o “temperamento forte” dele, por não ser “compreensiva o suficiente”. Sua mente, exausta, tentava encontrar lógica no caos, justificativas para a dor, aceitando as migalhas de carinho que ele oferecia nos “dias bons” como prova de um amor que, na verdade, nunca existiu de forma saudável.

Mas numa tarde chuvosa, daquelas que convidam à introspecção e à melancolia, esperando o ônibus na praça úmida, viu um cartaz colado num poste. A tinta estava um pouco borrada pela chuva, mas as letras eram claras, impactantes, como um grito silencioso.

“VIOLÊNCIA NÃO É SÓ FÍSICA. É também psicológica, moral, patrimonial e sexual. É controlar, silenciar, isolar. E tem lei pra isso: a Lei Maria da Penha.”

Abaixo, um número em destaque, um convite silencioso à esperança, um fio de luz no abismo: 180.

Raquel leu e releu. As palavras pareciam saltar do papel, atingindo-a no âmago, como flechas certeiras que desvendavam a verdade. Pela primeira vez, percebeu que o que vivia tinha nome. Um nome oficial, reconhecido por uma lei. Não era fácil, mas tinha que admitir a si mesma que vivia um relacionamento abusivo, violento, perigoso. As peças do quebra-cabeça de sua vida, que antes pareciam desconexas, começaram a se encaixar, revelando a imagem cruel da realidade.

Que ela não precisava esperar mais uma agressão física, não precisava esperar pelo sangue e por gritos ouvidos pelos vizinhos, para entender que vivia sob constante medo, sob um regime de terror psicológico velado que a sufocava diariamente. Que o direito de escolher sua própria roupa, suas amizades, sua profissão e, acima de tudo, sua liberdade, não eram concessões do marido, presentes que ele lhe dava e tirava quando bem entendia, eram direitos dela, inalienáveis. Que aquilo não era amor, jamais foi amor. Era violência em suas mais diversas e cruéis formas, disfarçada de cuidado, de proteção, de ciúme.

Naquela noite, não conseguiu dormir. As palavras do cartaz martelavam em sua mente, alternando com as memórias dolorosas e as justificativas que ela mesma havia criado. O medo ainda estava lá, um nó no estômago, mas algo novo começava a brotar: a semente da coragem. Ela sentia uma chama acender dentro de si, tímida, mas persistente.

Pesquisou no celular escondido, enquanto ele dormia profundamente ao seu lado, alheio à tempestade que se formava dentro dela. Encontrou um grupo de apoio online, onde mulheres compartilhavam suas histórias, seus medos, suas vitórias. Leu depoimentos de mulheres que passaram por situações semelhantes, que haviam conseguido se libertar. Descobriu que havia uma rede de proteção, um caminho que não estava sozinha. Que poderia ter acompanhamento jurídico, psicológico, e que sair da violência não era fácil, jamais seria, mas era possível. E a possibilidade, por menor que fosse, era um farol em meio à escuridão, apontando para uma vida de liberdade e dignidade.

Algumas semanas depois, com o coração ainda tremendo a cada passo, mas com a alma fortalecida pela convicção de que merecia mais, Raquel reuniu todas as suas forças. Procurou uma advogada especializada, indicada por uma das mulheres do grupo de apoio. A advogada a ouviu, sem pressa, sem interrupções e sem julgamentos. Foi difícil falar tudo aquilo, organizar os pensamentos, não sabia nem como começar, tamanha a complexidade de anos de abuso. Lembrou de tantos anos e episódios de diminuição, humilhação, constrangimentos, sentiu vergonha e medo e, no final, chorou muito, liberando anos de dor contida. Mas, de certa forma, se sentiu bem, leve. Finalmente, expôs tudo sem procurar desculpas ou se culpabilizar por tudo, tirando o peso esmagador de seus ombros.

Com o apoio inestimável dessa advogada especializada em casos de violência doméstica, Raquel pediu a medida protetiva. O papel chegou. Um documento que representava sua liberdade. Ele foi notificado, e a tensão no ar era palpável. A reação dele, uma mistura de fúria e incredulidade, não a surpreendeu, mas não a abalou como antes. Pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu um alívio imenso, um ar fresco entrando em seus pulmões. Raquel respirou fundo, um suspiro que parecia carregar o peso de anos de silêncio e opressão.

Foi o primeiro dia em que escolheu sua própria roupa, um vestido azul vibrante que ele detestava. Maquiou-se em silêncio, delineando os olhos com precisão, passando um batom vermelho vibrante que antes era proibido, um símbolo de sua redescoberta. Olhou-se no espelho, e a mulher que viu não era mais a sombra apagada que a assombrava, os olhos tristes, o sorriso forçado. Era Raquel, renascida, com um brilho novo no olhar, uma força recém-descoberta. E um sussurro firme, quase um juramento, escapou de seus lábios, preenchendo o ar com a promessa de um futuro novo:

“Nunca mais.”

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