No contexto do Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março, desde 1993, a Organização das Nações Unidas (ONU) criou esta data para destacar a importância da água doce no planeta e combater a crise global da água, com o intuito de apoiar a conquista do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6 (ODS-6): água e saneamento para todos até 2030. A ONU, através de sua coordenação das Nações Unidas para Água e Saneamento, anualmente define o tema do Dia Mundial da Água, com o intuito de focar em assuntos específicos que promovem a criticidade e ação imediata quanto a uma matéria. Além desse intuito, também se preocupa em educar e conscientizar as populações, mobilizar condutas e destacar desigualdades, incentivando soluções inclusivas e abordando desafios de cada período.
Neste ano de 2026, o tema escolhido para o dia Mundial foi ‘água e gênero’, assunto este em que estamos sendo convidados à reflexão sobre uma dimensão frequentemente invisibilizada no debate sobre recursos hídricos: a desigualdade no acesso.
Embora a água seja reconhecida como um direito fundamental, sua ausência ou inadequação em sua distribuição impacta de forma desproporcional mulheres e meninas, em vários locais do Mundo, revelando não apenas um desafio de infraestrutura, mas uma questão de equidade, saúde pública, dignidade humana e resquícios de cultura patriarcal, ainda presente, mas que já foi predominante num passado não tão distante.
Estudos apontam que em várias partes do mundo, principalmente naqueles locais que sofrem com problemas estruturais e de desenvolvimento econômico, sem falar na questão do clima e do meio ambiente, constata-se que a dificuldade de acesso à água, tem proporcionado à mulheres e crianças, sobretudo meninas, a tarefa de administrar a gestão desse recurso fundamental em seus lares, também levando-se em consideração que são essas pessoas também que normalmente precisam se responsabilizar pela busca da água em pontos de distribuição ou de existência de captação, em localidades onde não há rede de distribuição. Desse modo, as mulheres e crianças, que adquirem essa responsabilidade por estarem em casa na maior parte do dia, cuidando dos afazeres domésticos, e sendo cuidadas por essas mulheres mães, no caso das crianças, são prejudicadas pela perda de tempo útil nessas atividades. Esse grupo vulnerável também está sujeito e é exposto a perigos externos que perpassam inclusive pela possibilidade de violência, propiciando uma maior vulnerabilidade a problemas de segurança e saúde, e a situações vexatórias quando a água não é suficiente para a demanda necessária àquele lar.
Porém, analisando esse ponto por um outro olhar, para aqueles locais que já possuem rede de abastecimento, mas não há distribuição contínua, havendo intermitência, a situação das ‘administradoras’ da água não é diferente. Nesses casos, apesar da existência de infraestrutura, mesmo que precária, e em desacordo com o preconizado pelas normas, são as mulheres que continuam a se responsabilizar pela administração da água, para a realização das atividades do lar, a exemplo da lavagem de louças, preparo de alimento, lavagem de roupas, higiene dos lares como um todo, banho dos residentes da casa, sem falar na água para ingestão das pessoas e animais, o que gera de qualquer forma sobrecarga mental e perda de tempo útil, que poderia ser utilizado, por exemplo, para dedicação profissional, que promove geração de renda e independência feminina.
No sentido da geração de renda, em locais como no Nordeste do país, onde a falta de água nos lares é algo comum, as mulheres são extremamente prejudicadas por essa ausência de recurso hídrico, visto que muitas delas assumem o papel de provedoras exclusivas ou principais de suas famílias, por não viverem numa relação marital ou por seus homens trabalharem fora em busca de melhores condições de sustento. Nessas situações, essas gestoras do lar, na maioria dos casos, não têm como buscar trabalho formal ou informal, por ausência de tempo para dedicação de atividades profissionais extra lares. Isso contribui para o empobrecimento das famílias e das próprias mulheres, que não tem condições de manterem-se financeiramente, de modo a prover-se com renda mínima necessária para promoção de sua dignidade e independência, para garantir o sustento de sua família. De certo modo, isso traz impactos na economia do país, pois muitas dessas mulheres recorrem aos programas de distribuição governamental de renda existentes, o que indica que a pobreza persiste nesses locais e acarreta índices de desenvolvimento humano inaceitáveis.
Nesse caso, os dilemas dessas mulheres, extrapolam os dilemas comuns já enfrentados por todas: a dificuldade de inserção no mercado de trabalho, ante suas responsabilidades com os seus lares e filhos, e dificuldade de renda que garanta sua independência e melhor qualidade de vida. Além disso, um agravante é visível: essas mulheres fazem parte da sociedade que vive na pobreza extrema e que usam os recursos governamentais de distribuição de renda como única fonte de sustento.
Na outra vertente, comparando-se essa observação com mulheres de um padrão sócio-econômico mais elevado, essa análise é possível de ser feita ao contabilizar a baixa quantidade de mulheres nos cargos de gestão e de decisão política, pois dificilmente mulheres conseguem assumir responsabilidades gerenciais em seus trabalhos, bem como de assumir cargos públicos pelas suas características e dificuldades enfrentadas em suas rotinas, com os cuidados com seus lares e filhos. Isso é piorado, nos locais em que há escassez e problemas com a distribuição de água, e mesmo no caso das mulheres mais abastadas, talvez mais instruídas, já inseridas no mercado de trabalho, e viverem em áreas com maior infraestrutura de serviços de saneamento, esse quadro não é diferente, visto que também são as mulheres as responsáveis pela gestão da água e da higiene na rotina de suas casas.
Estudos apontam que nos serviços de saneamento e de recursos hídricos, onde não há mulheres em sua gestão e nos papéis de decisão política, os serviços de saneamento são mais deficientes, e onde há mulheres, provavelmente por terem estas uma visão mais sensível das dificuldades e dilemas femininos, há uma maior chance de se proporcionar maior resolutividade dos problemas existentes, principalmente quanto a questão da água, o que gera grande impacto nas decisões, indicando necessidade de mudança gerencial e maior representatividade feminina na política, por serem estas áreas antes primordialmente assumidas por homens, visto que o sistema e cultura patriarcal do passado, proporcionava, quase que exclusivamente, a inserção no mercado de trabalho deles nos setores decisórios, inclusive do setor de políticas públicas de saneamento, visto que algumas profissões eram mais aceitas para as pessoas do sexo masculino, como é o caso da engenharia, da administração, da política e do direito.
Nesse sentido, muita coisa já mudou, e hoje é possível encontrar muitas mulheres nesses ramos, e inclusive nos cargos com poder de decisão e ordem, porém ainda temos um longo caminho a percorrer na área do saneamento, visto que em pleno século XXI, ainda não possuímos essa infraestrutura básica de forma universal, de modo a garantir o desenvolvimento e promoção de saúde de toda a população no país. Para isso, a universalização dos serviços de saneamento é necessária e urgente, e seguindo o Novo Marco do Saneamento (Lei nº 14.026/2020), deve ocorrer até 2033, ao ter como meta garantir o acesso a água tratada à 99% da população brasileira. Contudo, mesmo desejando-se e havendo esforços das autoridades no sentido de atingir esse objetivo, provavelmente a dificuldade ainda existirá. E sob o ponto de vista gerencial, seja nos órgãos de decisão ou nos lares, a nossa cultura é que precisa também evoluir de forma a promover a igualdade e divisão de tarefas nos lares, para assim proporcionar a equidade entre os gêneros.
Assim, essa equidade poderá ser promovida através da Universalização dos serviços de saneamento, que garantiria uma maior oferta de água, inclusive em locais não abastecidos por rede de distribuição, o que proporcionaria a disponibilidade do recurso nos lares de forma mais fácil e segura, com garantia de qualidade de serviço, proporcionando segurança hídrica e sanitária à população, mas também através da mudança cultural entre os gêneros quanto o assunto da gestão e cuidados com o lar. A divisão de tarefas entre homens e mulheres deve ser incentivada e valorizada, com o intuito de diminuir o machismo doméstico, evitando-se inclusive casos de violência contra as mulheres, que a cada dia demonstram que a visão masculina do empoderamento feminino precisa ser mudada.
A revolução feminina não veio para minimizar o gênero masculino, veio para promover a equidade e garantir uma melhoria das relações entre os gêneros, promovendo autonomia, cuidado mútuo, saúde mental nas relações e avanços econômicos com a inserção das mulheres no mercado de trabalho e na política, garantindo a promoção dos direitos fundamentais, estando o acesso à água como um deles. Assim, garantir o acesso à água e ao saneamento, através da universalização dos serviços, não é apenas uma questão de infraestrutura, mas um passo essencial para a promoção da equidade de gênero, pois enquanto a água faltar, a desigualdade continuará sendo reproduzida dentro e fora dos lares.
REFERÊNCIAS
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