O clássico literário O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson (1886. cap. 10), ficou famoso por tratar da dupla personalidade humana na qual o mesmo indivíduo poderia ser uma pessoa extremamente amável e de repente se transformar num personagem de pura maldade. Seguindo a obra de Stevenson, as torcidas organizadas têm no “Monstro” seu lado mais conhecido na sociedade com ações que resultam no pedido de extinção desses grupos por parte da Justiça. No entanto, um traço desconhecido dessas torcidas prega a bondade e o altruísmo em lugar da selvageria comum nos dias de jogos. É o momento “Médico” da Fanáutico, na Explosão Inferno Coral e na Torcida Jovem do Leão.
“Temos várias ações sociais e chamamos a imprensa para divulgar, mas ninguém quer saber. Temos o lado violento mesmo, com pessoas infiltradas que só prejudicam a nossa imagem, porém também nos preocupamos com o lado social que a torcida pode promover”. explicou o diretor social da Explosão Inferno Coral Álvaro Luiz Melo, conhecido como Dinho.
As ações sociais realizadas pelas três torcidas, pautadas em causas de relevante valor humano-societário, vão de arrecadação de alimentos até visitas em creches e asilos. A Torcida Jovem, por exemplo, promove um campeonato anual de futsal com seus integrantes no qual a inscrição é a doação de alimentos ou roupas. O evento foi criado em 2011 e vai para terceira edição este ano.
“A intenção é unir os integrantes da nossa torcida e mostrar que ela vai além dos dias de jogos. E a partir do momento em que pedimos doações, faz com que o jovem reflita sobre a importância de ajudar o próximo e que ele entenda que os gritos de guerra nas arquibancadas não possam ser extrapolados para a violência física” disse o vice-presidente da Jovem, Marcelo Domingues.
No primeiro ano do torneio, segundo Domingues, foram arrecadados 3.840 litros de água para as vítimas das enchentes na zona da mata sul pernambucana. Em 2012, 400 agasalhos foram distribuídos pela Jovem no Recife. Além do campeonato realizado na quadra poliesportiva da sede do Sport, a torcida ainda faz doações semestrais de sangue no Hemope.
A Explosão Inferno Coral disse estar presente nas campanhas de doações de sangue, mas é na entrega de sopa, mungunzá e pão que a torcida organizada do Santa Cruz se empenha mais. Toda quinta-feira à noite, desde o início de 2012, cerca de 20 integrantes da organizada distribuem alimentos e atenção para os desabrigados do centro do Recife.
“As pessoas já ficam nos esperando. “Olha os meninos da Inferno”, dizem. É emocionante, pois mostra como os nossos problemas são pequenos se comparados ao dessas pessoas. Quando as condições estão boas, fazemos dois panelões industriais de sopa ou mungunzá, mas pelo menos temos um sempre. São cerca de 400 a 500 pratos acompanhados com pão” – revelou Dinho.
Além da entrega de alimentos, a Explosão Inferno Coral dá aulas de percussão para a comunidade na sua sede, localizada no bairro do Arruda, visitas creches e distribui brinquedos e brindes no Dia das Crianças.
“Dizem que queremos dar uma de bonzinhos, mas é de coração, não é questão de limpar a nossa imagem diante da sociedade. Fazemos porque somos assim e temos essa mentalidade de ajudar o próximo. É assim que a diretoria pensa” – destaca o diretor social da Explosão Inferno Coral.
O dirigente da Fanáutico, Fabiano Silva, faz coro sobre as intenções da organizada em promover ações sociais. A ala alvirrubra costuma visitar creches, pelo menos uma vez no ano, para doar brinquedos e alimentos. Atitude iniciada em 2005. “Não temos intenção de aparecer, pois ninguém notícia isso, a grande mídia
não publica. Fazemos porque queremos e mostramos para essas crianças que não somos o que se prega por aí. Somos torcedores. Ensinamos como torcer pelo clube de coração, além de levar alegria para eles.”
O sociólogo Gilberto da Motta, explica que a intenção das organizadas em fazer o bem é legítima a partir do ponto em que a torcida é formada por várias correntes ideológicas. Sem tirar a responsabilidade ou acusar a diretoria pelos atos de violência, Motta defende que a heterogeneidade é a resposta para atos tão díspares.
A cobertura midiática sobre as torcidas organizadas em Pernambuco revela uma dinâmica de produção de sentidos seletiva, na qual a violência é amplificada e as ações sociais são sistematicamente silenciadas. Essa prática se insere num contexto de espetacularização da notícia, em que o conflito é tratado como produto jornalístico, servindo ao interesse da audiência e não ao compromisso ético da informação. Conforme afirma Pierre Bourdieu, P. 9-26, os meios de comunicação exercem um “poder simbólico” capaz de moldar percepções e legitimar desigualdades sociais. Ao reproduzir uma narrativa que associa as torcidas à criminalidade, a mídia cria um estigma coletivo, dificultando a compreensão da complexidade sociocultural desses grupos e alargando as desigualdades sociais já entranhadas a esse coletivo.
Essa desinformação estrutural gera um efeito perverso: as torcidas organizadas passam a ser percebidas não como comunidades afetivas e culturais, mas como ameaças à ordem pública. Em Pernambuco, casos de violência são amplamente noticiados com imagens impactantes, manchetes sensacionalistas e linguagem de urgência, enquanto as campanhas de doação, ações humanitárias e projetos culturais dessas mesmas torcidas raramente alcançam espaço jornalístico. A ausência de cobertura equilibrada cria uma narrativa fragmentada, onde o “monstro” de Stevenson, metáfora para o lado violento, ganha destaque, e o “médico”, símbolo do altruísmo e da solidariedade, é apagado. Essa escolha editorial reflete o funcionamento de uma mídia que informa desigualmente, orientada por critérios de impacto, e não de verdade social.
O silêncio midiático sobre as ações sociais das torcidas organizadas constitui uma forma de violência simbólica, na medida em que nega visibilidade a práticas de cidadania e reforça estereótipos de marginalidade. Inspirando-se em Stuart Hall, pode-se compreender que a mídia não apenas reflete a realidade, mas a produz discursivamente, selecionando quais vozes e imagens merecem existir no espaço público. Ao omitir o lado solidário das torcidas, os veículos de comunicação constroem uma representação unilateral que impede o reconhecimento dessas coletividades como agentes legítimos de transformação social.
As torcidas organizadas, como a Explosão Coral, a Torcida Jovem do Leão e a Fanáutico, têm desempenhado papéis sociais relevantes, promovendo campanhas de arrecadação, visitas comunitárias e ações de inclusão. Contudo, quando essas iniciativas não são noticiadas, o público é privado de enxergar o caráter humano e comunitário desses grupos. Essa invisibilização midiática reforça a narrativa da periculosidade e deslegitima qualquer tentativa de ressignificação social das torcidas. Em última instância, o que está em jogo é o direito à representação justa, um direito tão essencial quanto o direito à informação. Romper esse silêncio implica desafiar a lógica de uma comunicação que privilegia o conflito em detrimento da verdade plural, abrindo espaço para uma narrativa que reconheça a dimensão cidadã das torcidas como expressão da cultura popular e da solidariedade social.
Os Termos de Ajustamento de Conduta (TACs) firmados pelo Ministério Público de Pernambuco com os clubes de futebol pernambucanos representam instrumentos jurídicos e simbólicos de nova relação entre clubes, torcidas e sociedade. Em 11 de fevereiro de 2025, os dirigentes dos clubes Sport Club do Recife, Clube Náutico Capibaribe, Santa Cruz Futebol Clube e a Federação Pernambucana de Futebol (FPF) assinaram um TAC com o MPPE no qual se comprometeram a eliminar qualquer forma de vínculo com as torcidas organizadas, nomeadamente Torcida Jovem do Leão, Explosão Coral e Fanaútico, impedindo apoio financeiro, logístico ou patrimonial a essas agremiações.
No TAC, os clubes se obrigaram a:
Essas cláusulas demonstram que o TAC não atua apenas como medida penalizadora, mas como marco institucional de transformação cultural e preventiva. Nesse sentido, o TAC é uma estrutura que, se bem articulada com projetos comunitários das torcidas, pode mudar a narrativa pública de: “organizadas = violência” para “organizadas = repertório social e de cidadania”.
As torcidas organizadas, por sua vez, quando engajadas em campanhas comunitárias, criam um substrato de iniciativa social que pode ser potencializado e divulgado pela mídia e pelos clubes.
A partir da formalização do TAC, surge o momento de converter o corte de vínculos em oportunidade de reorientação social: os clubes e a sociedade podem apoiar de forma transparente e institucional a transformação desses grupos em agentes de cultura, esporte e solidariedade.
Importante detalhe: embora o foco do TAC seja romper vínculos com o que se entende como as “organizadas problemáticas”, existe na cobertura do MPPE indicação de que “embora formalizadas junto ao Ministério Público existam 28 torcidas nos três grandes clubes, apenas três geram problemas. Logo, temos 25 grupos que são da cultura de paz, que podem e devem ser valorizados.”
Portanto, a mídia, os clubes e o poder público deveriam divulgar e acompanhar como essas 25 (e outras) torcidas podem migrar para práticas de comprometimento social, através de projetos estruturados que:
como “estrela de arquibancada”, mas como “ator social”.
Ao fazer isso, o TAC deixa de ser apenas medida de repressão e passa a compor plano de requalificação comunicacional das torcidas, permitindo que se reconectem com a sociedade de forma legítima, com transparência e reconhecimento.
Em síntese, o papel desse TAC — integrado aos projetos comunitários é duplo: sancionar vínculos contrários à ordem pública e, ao mesmo tempo, reconhecer que as principais torcidas organizadas de Pernambuco vêm apresentando avanços significativos em sua relação com a Justiça e com a sociedade. Atualmente, tanto a Explosão Coral quanto a Torcida Jovem do Leão e a Fanáutico possuem uma “ficha” positiva, marcada pela ausência de ocorrências judiciais graves e pela consolidação de uma imagem mais equilibrada e responsável.
Essas torcidas têm atuado com regularidade em ações sociais, colaborando com órgãos públicos e iniciativas comunitárias, o que demonstra um processo real de
amadurecimento institucional e social. Nesse contexto, a cobertura jornalística deveria acompanhar essa evolução, valorizando os resultados concretos e o esforço de reconstrução de imagem, em vez de restringir-se à repetição de estigmas do passado. Ao reconhecer esse novo cenário, a mídia contribui para fortalecer o papel das torcidas como agentes de cidadania, cultura e pertencimento coletivo, alinhados a um ideal de convivência pacífica e responsabilidade social.
É evidente a urgência em repensar as narrativas midiáticas que comumente associam as torcidas organizadas a violência e baderna. A pesquisa traz à luz a informação que esses grupos desempenham papéis sociais de grande valor ético- humanitário, pautados em ações solidárias, educativas e culturais que reafirmam seu compromisso com a comunidade a qual estão inseridos. No entanto, a mídia, ao privilegiar a imagem do “monstro”, suprime a imagem do “médico”.
O rompimento do privilégio midiático do “monstro” exige um reposicionamento
ético e comunicacional por meio das grandes mídias, clubes e poder público.
O Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), se repensado como meio de ressignificação e não de punição, pode se tornar um grande marco de transformação institucional, mudando assim, a identidade visual ligada às torcidas organizadas, rompendo o paradigma “monstro” e reconhecendo as torcidas como expressões legítimas de identidade cultural, cidadã e popular.
Assim, conclui-se que, a maior dificuldade e o maior desafio não está em conter a violência, mas redirecionar o foco da narrativa que envolve esses grupos. Apenas uma comunicação justa e comprometida com a verdade social será possível quebrar esses paradigmas e transformar o estigma social em reconhecimento das torcidas como expressões legítimas de identidade cultural e popular.
ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DE PERNAMBUCO (ALEPE). Audiência debate
propostas para enfrentar violência envolvendo torcidas organizadas. Recife, 27 maio 2025. Disponível em: https://www.alepe.pe.gov.br/2025/05/27/audiencia-debate- propostas-para-enfrentar-violencia-envolvendo-torcidas-organizadas/
MINISTÉRIO PÚBLICO DE PERNAMBUCO (MPPE). Sport, Náutico, Santa Cruz e FPF firmam TAC com MPPE para proibir organizadas nos estádios. Recife, 11 fev. 2025. Disponível em: https://portal.mppe.mp.br/w/sport-n%C3%A1utico-santa-cruz-e- fpf-firmam-tac-com-mppe-para-proibir-organizadas-nos-est%C3%A1dios
PERNAMBUCO.COM. Times de Pernambuco firmam acordo para proibir torcidas organizadas. Recife, 11 fev. 2025. Disponível em: https://www.pernambuco.com/noticia/ultimas/2025/02/times-de-pernambuco-firmam- acordo-para-proibir-torcidas-organizadas.html
STEVENSON, Robert Louis. O médico e o monstro. Tradução de Oscar Mendes. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2006. (Obra original publicada em 1886).
GOMES, Daniel; CASTRO, Elton; LIUALSU, Lucas; MORAES, Lula. “Organizadas: ações sociais são pouco conhecidas da população.” Globo Esporte, Recife, 20 fev. 2013. Disponível em: https://ge.globo.com/pe/noticia/2013/02/organizadas-acoes- sociais-sao-pouco-conhecidas-da-populacao.html
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