Michelly Medeiros Mororo

MARÇO: ENTRE LÁPIDES E FLORES

Postado em 26 de março de 2026 Por Michelly Medeiros Mororó Advogada, Pedagoga, Docente e Presidente da OAB Subseccional de Araripina.

Março não floresce.

Março sangra.

Não foi flor.

Foi lápide.

Não foi data.

Foram nomes. Rostos.

Histórias que pararam no meio.

E o mais cruel: não foi choque.

Foi reconhecimento.

A gente já viu isso antes.

Muitas vezes.

Como disse Cármen Lúcia, essas mortes sempre existiram.

O que mudou?

Quem passou a morrer sob os olhos de todos.

Antes, mulheres invisíveis.

Pobres. Periféricas. Silenciadas duas vezes:

pela violência e pelo esquecimento.

Sim, a dor é seletiva.

E isso também mata.

Hoje, a violência não chega gritando.

Ela chega doce.

Didática.

Quase gentil.

Vem em forma de conselho.

De cuidado.

De amor mal explicado.

“Se preserve. Se respeite.

Se guarde.”

“Não precisa estudar.

Não precisa trabalhar.

Sou seu macho-alfa provedor.

Seja meu troféu.

Embonecado. Mas em formato de chaveiro, pra caber no meu controle.

Pra ser menor que eu.”

E, sem perceber, nos diminuímos.

Mais do que nunca ecoa Michel Foucault:

não mais correntes visíveis, mas vigilância dentro da pele.

Um controle que não precisa de muros, porque agora mora na mente.

Um panoptismo patriarcal.

A gente se vigia — e se deixa vigiar. Se corrige — e se deixa corrigir.

Se cala — e se deixa calar.

Corpos dóceis.

Vidas editadas. Liberdades negociadas em nome de uma paz que nunca chega.

Mas quando uma mulher decide não caber… Ah, minhas caras… ela vira ameaça. E ameaça, nesse sistema, precisa ser eliminada.

Mulher que não se curva incomoda mais do que qualquer erro.

São meninas com seus nomes em listas juvenis de estupro.

São corpos violados em grupo como se fossem coisa. São risadas de conivência que ecoam mais alto que o pedido de socorro. São vozes com milhares de seguidores ensinando homens a odiar mulheres que ousam existir sem pedir permissão.

É a epidemia red pill, mas nós ainda não fomos vacinadas contra ela.

Eles organizam o ressentimento.

Dão linguagem ao ódio. Treinam homens para ver mulheres como erros a serem corrigidos.

Talvez seja hora de reconhecer: não basta punir o resultado.

É preciso revisar a origem.

A forma como educamos nossos meninos

também escreve o futuro das nossas meninas.

E o que dilacera?

É que não são só eles.

São também elas.

Mulheres que defendem o que as prende.

Que protegem o que as apaga.

Que repetem discursos que as diminuem.

Por medo.

Por hábito.

Por conveniência política ou religiosa. Por terem aprendido que sobreviver é não incomodar.

E há vozes que ressignificam a própria história. Como Cíntia Chagas, que hoje reconhece: a violência não escolhe ideologia,  e seu enfrentamento exige união.

No parlamento, o abandono ganha forma institucional. Enquanto mulheres morrem, há quem esteja ocupado demais performando indignação para as redes sociais.

Muito discurso.

Pouca entrega.

Muito vídeo.

Pouca vida preservada.

Somos maioria nas urnas, mas ainda pedimos licença para existir nas decisões. E quando não estamos lá, nossas dores não viram pauta.

E quando estamos, às vezes, algumas escolhem o lado mais fácil:

o aplauso rápido, o discurso que agride, a conveniência que custa vidas.

A verdadeira representatividade, por vezes, está em uma mulher trans que enfrenta, não em uma mulher cis que escolhe se curvar ao machismo.

Representatividade não é sobre quem ocupa a cadeira. É sobre quem protege quando ninguém está olhando.

Seguem tentando nos convencer de que o problema é o feminismo.

Mas escuta bem: ele não mata.

O que mata é o controle. O que mata é a posse. O que mata é a crença de que uma mulher tem dono.

Feminismo é grito de quem sobreviveu.

É espaço construído por quem veio antes.

É trincheira marcada pelo sangue das que nos antecederam.

É resistência contra o sangue que continua a ser derramado.

É tentativa desesperada de continuar viva.

É março… você tão logo se vai.

As flores murcharão.

As lápides, entretanto, permanecerão.

Não nos permitirão esquecer das que não chegaram até aqui.

Das que viraram número.

Das que foram manchete por um dia.

Doravante, fadadas ao silêncio eterno.

Isso não é acaso.

É estrutura. E toda estrutura só se mantém porque alguém sustenta.

A violência não começa no fim.

Ela começa na piada.

No comentário.

Na normalização do absurdo.

No riso inoportuno.

E termina onde sempre termina: no corpo inanimado de uma mulher.

Sempre.

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