O Brasil segue figurando entre os países com maiores índices de violência contra a mulher. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) em 2025, o Brasil registrou cerca de 1.568 feminicídios, consolidando um aumento de 4,7% em relação ao ano de 2024, evidenciando uma realidade persistente e alarmante: mulheres continuam sendo mortas pelo simples fato de serem mulheres. Por trás das estatísticas frias, há histórias interrompidas por relações marcadas por controle, posse e, sobretudo, pela persistente naturalização da violência.
Nesse cenário, emerge com força um fenômeno contemporâneo que merece atenção crítica: a expansão do chamado movimento ‘’Red Pill’’. Sob o pretexto de ‘’despertar’’ masculino, esses grupos disseminam uma narrativa baseada na suposta perda de poder dos homens na sociedade contemporânea, frequentemente convertendo frustração em ressentimento e, não raramente, em ódio direcionado às mulheres.
A intelectual brasileira Djamila Ribeiro nos lembra que o machismo estrutural não é apenas uma herança cultural, mas um sistema ativo de produção de desigualdades. Nesse sentido, o discurso red pill não surge no vazio: ele é alimentado o tempo inteiro por uma estrutura histórica que sempre conferiu privilégios ao masculino e que reage violentamente quando tais privilégios são questionados.
Da mesma forma, Heleieth Saffioti já apontava que a violência contra a mulher não é um desvio individual, mas um fenômeno socialmente construído, enraizado nas relações de poder. O feminicídio, portanto, não é um ato isolado de brutalidade, mas o ponto extremo de uma lógica que começa no controle, se desenvolve na desvalorização e culmina na ELIMINAÇÃO.
O que se observa, com preocupação, é que comunidades digitais têm funcionado como espaços de reforço dessas ideias, criando bolhas onde a misoginia é normalizada e até incentivada. Muitos jovens estão sendo capturados por discursos que oferecem pertencimento, mas que também alimentam uma visão distorcida das relações afetivas, reduzindo mulheres a inimigas ou objetos.
É preciso dizer com clareza que não há neutralidade possível diante disso. É impossível existir naturalidade. O Direito, enquanto instrumento de organização social, não pode se limitar à repressão penal após a tragédia consumada, afinal, quando a violência se concretiza, mulheres já foram mortas, mães já perderam suas filhas, filhas já perderam suas mães, irmãs e amigas. Punir, nesse cenário, é necessário, mas insuficiente: não devolve vidas nem impede que novas histórias sejam interrompidas. É necessário fortalecer políticas públicas, investir em educação de gênero e promover debates que enfrentem a raiz do problema.
A advogada e ativista Maria Berenice Dias já destacou que a efetividade da Lei Maria da Penha depende não apenas de sua aplicação formal, mas de uma mudança cultural profunda. E essa mudança passa, inevitavelmente, por confrontar discursos que legitimam a violência, ainda que de forma velada. E preciso dizer ainda que essa transformação começa dentro de casa, nos comentários naturalizados feito pelas crianças do sexo masculino, nas piadas aparentemente inofensivas dos colegas, nas falas reproduzidas por pais, amigos e familiares que, muitas vezes sem perceber, perpetuam a desvalorização da mulher. É nesse cotidiano silencioso que a violência encontra terreno fértil para se consolidar.
Falar sobre feminicídio hoje é, portanto, falar também sobre linguagem, sobre cultura e sobre os espaços onde o ódio se organiza. O movimento red pill não é apenas uma tendência de internet, é verdadeiramente um SINTOMA de uma sociedade que ainda resiste em aceitar a igualdade de gênero como valor inegociável.
Se quisermos, de fato, reduzir os índices de feminicídio no país, será preciso ir além dos números e enfrentar as narrativas que os sustentam. Porque toda violência começa, antes de tudo, como uma ideia que alguém decidiu não questionar.
E talvez o maior desafio do nosso tempo não seja apenas punir a violência já consumada, mas impedir que ela continue sendo silenciosamente cultivada. Enquanto discursos de ódio encontrarem abrigo, seja em espaços digitais, seja em mentalidades que ainda resistem à igualdade, o feminicídio seguirá não como exceção, mas como consequência. Romper esse ciclo exige mais do que leis: exige coragem coletiva para nomear, enfrentar e transformar as estruturas que ainda autorizam, de forma explícita ou velada, a violência contra as mulheres.
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