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Quando a sala de aula silencia: O feminicídio de Juliana Santiago e a urgência de uma educação que protege

Postado em 12 de fevereiro de 2026 Por Karina Oliveira  Advogada. Professora Universitária. Mestre em Direitos Humanos (UFPE). Especialista em Processo Civil Contemporâneo (UFPE-FDR). Gestora de Projetos na OAB/PE. Mediadora e Conciliadora Judicial (CNJ). Coordenadora de Curso (Direito).

A noite de 6 de fevereiro de 2026 ficará marcada, para sempre, na memória da comunidade acadêmica de Porto Velho e no coração de cada pessoa sensível à violência de gênero no Brasil. Naquele dia, dentro de uma sala de aula do Centro Universitário Aparício Carvalho, não apenas se encerrou uma jornada de ensinamentos, mas foi brutalmente interrompida a vida de uma professora de Direito, a Dra. Juliana Mattos de Lima Santiago, que morreu após ser esfaqueada por um aluno durante o exercício de sua missão pedagógica.

A tragédia, em seu aspecto mais cru e devastador, transcendem os limites físicos da sala: ela grita, com selvageria, contra cada uma de nós que ainda acreditamos na educação como espaço seguro de formação e convivência. A violência que silencia uma voz que instrui não é um acidente isolado, é expressão extrema de um problema estrutural profundamente enraizado em nossa sociedade: o machismo, a cultura do assédio e a banalização da violência contra a mulher, inclusive no ambiente acadêmico.

Não se trata apenas de um estudante fora de si, mas de um padrão cultural que insiste em reafirmar, por meio da violência, que a recusa de uma mulher ainda que seja uma recusa implícita na relação professor–aluno ou mesmo no convívio cotidiano é motivo legítimo para perversões que levam à morte. Recentes apurações policiais indicam que o suspeito tentou justificar o crime por um suposto envolvimento com a vítima, versão que foi descartada pelas investigações, que revelaram que a docente não mantinha esse tipo de relacionamento com o agressor, e ele próprio confessou que foi rejeitado por ela.

Esse episódio, brutal e trágico, não é um desvio anômalo em uma sociedade pacificada, mas um sintoma gritante de que a educação jurídica, por si só, não está imune às mazelas sociais que assolam o Brasil. Professores e professoras, por vezes idealizados como figuras distantes da violência cotidiana, são, na prática, expostos aos mesmos riscos que tantas mulheres enfrentam diariamente, silenciamento, ameaças, comportamentos possivelmente abusivos que, quando não são interrompidos, podem evoluir para tragédias irreversíveis.

Como professora de graduação em Direito, confesso que a profunda comoção que me toma não decorre apenas do horror do ato em si, mas da constatação de que nossas salas de aula ainda não são espaços onde a dignidade humana, em especial da mulher, é garantida com a robustez que a Constituição e nossa legislação ostentam em teoria. O feminicídio classificado no ordenamento jurídico brasileiro como forma extrema de violência de gênero não se encerra no momento do ataque: ecoa na sensação de insegurança que paira sobre tantas colegas educadoras, estudantes e profissionais que convivem diariamente com relações de poder assimétricas e expectativas sociais opressivas.

É imperativo, sob perspectiva crítica, que a comunidade jurídica reflita não apenas sobre a punição exemplar dos responsáveis, mas sobre a razão pela qual a violência de gênero encontra terreno fértil até no ambiente que deveria simbolizar a civilidade e o debate racional. Que tipo de educação formamos quando a própria sala de aula se transforma em cenário de terror? Quais são as falhas culturais, institucionais e pedagógicas que permitem que um aluno veja na rejeição de uma mulher um motivo para a destruição da vida dela? Essas perguntas não são apenas retóricas, mas exigem respostas urgentes.

Lamentar a morte da Dra. Juliana Santiago é pouco. É preciso transformar o luto em ação concreta. Isso significa, antes de mais nada, reforçar em cada disciplina, em cada debate, em cada currículo, a compreensão de que a igualdade de gênero não é um acessório acadêmico, mas pedra angular do Estado Democrático de Direito. Significa também que instituições de ensino devem fortalecer políticas claras de prevenção e enfrentamento à violência, além de mecanismos eficazes de acolhimento e proteção a docentes e discentes que enfrentem situações de risco.

A morte de uma professora, de uma mulher, de uma autoridade em matéria jurídica, não pode não pode ser compreendida como um desvio individual sem lastro nas distorções sociais que o alimentam. Ela é, ao contrário, um espelho cruel daquilo que ainda precisa ser transformado em nossa cultura, em nossas salas de aula, em nossas práticas jurídicas e educacionais. Que as palavras ensinadas por quem nos deixou não se percam no silêncio pós-tragédia. Que a memória da Dra. Juliana inspire não apenas pesar, mas compromisso renovado com uma sociedade mais justa, livre de violência de gênero e verdadeiramente protetora da vida e da dignidade humana.

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