O desejo, em sua essência mais visceral, é um ato de coragem que nem todos podem pagar. Muito antes de compreender conceitos formais de cidadania ou soberania, compreendi que as estruturas sociais possuem uma capacidade silenciosa de disciplinar o que acreditamos ter o direito de desejar. Nascer no Brasil, portanto, é aprender desde cedo que o mundo muitas vezes nos enxerga sob a lente da escassez. Em realidades historicamente marginalizadas, a ambição pode soar como imprudência, como delírio, e a própria identidade como um risco. O cotidiano nos ensina a esconder expectativas às margens pouco provável, transformando a esperança em uma zona de contenção de risco.
Essa mecânica de calar-se não era e nunca foi para mim um conceito sociológico. Era a paisagem da minha própria casa. Crescer em um ambiente doméstico instável fez com que a contenção da própria voz e o apagamento de vontades se tornassem minhas principais ferramentas de sobrevivência. Em um cenário onde o que se calava era sempre mais imperativo do que o que se pronunciava, aprendi o que significa habitar um roteiro escrito por expectativas alheias. Contudo, foi desse mesmo esconderijo que nasceu minha convicção mais forte: a verdadeira independência não começa quando escolhemos entre os caminhos que nos são previamente concedidos, mas no instante exato em que reivindicamos o direito de autoria sobre a nossa própria existência.
Fazer dessa convicção uma prática transformou minha trajetória acadêmica e profissional em um processo consciente de reconstrução e recomeço. Minha relação com a Assembleia Legislativa de Pernambuco começara anos antes, quando, ainda no ensino médio, venci um concurso estadual de redação sobre a capacidade transformadora da participação cidadã. Ao atuar no mesmo espaço tempos depois, passei a compreender de perto o peso e a responsabilidade das instituições estatais.
Há um ano na Alepe, percebi que a distância entre as leis e a vida real muitas vezes reproduz a mesma dinâmica de silenciamento que conheci na infância: os cidadãos são colocados na posição de espectadores de decisões das quais não participam.
Sempre me recusei a aceitar a passividade, e essa recusa ecoa a própria memória do lugar de onde venho. No século XVII, Recife foi redesenhada sob o domínio holandês para espelhar ideais e pretensões eurocêntricas. Séculos mais tarde, a Insurreição Pernambucana e as revoluções liberais do século XIX forjaram a identidade do estado precisamente na recusa à submissão política. Essa história me ensinou que, embora sistemas possam ser criados para limitar ambições, ninguém, nem mesmo você, pode limitar o desejo daquilo que a sua própria essência reivindica.
Portanto, as lideranças jurídicas e políticas de que precisamos hoje não serão definidas apenas pela proficiência técnica ou pelo acúmulo de títulos formais. Elas pertencerão àqueles líderes que compreendem, por experiência própria, como as estruturas institucionais podem perpetuar a exclusão e que decidem usar as ferramentas do Direito e das políticas públicas para abrir fissuras e expandir a dignidade humana. Hoje, aos 21 anos, compreendo que cada passo dado é parte de um mesmo ato de insurreição pessoal e coletiva.
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