Foi nas aulas da disciplina de Direito e Literatura no PPGD da Universidade Federal de Santa Catarina que tive a grata oportunidade de conhecer e ser orientada pelo saudoso Professor Luiz Carlos Cancellier de Olivo, que, sabendo que eu estudava o direito das mulheres, pelo projeto que fui bolsista em edital especial da CAPES/Secretaria Nacional de Política das Mulheres, me direcionou a analisar as duas personagens femininas que sofreram violência doméstica e geraram o ponto tangencial entre Machado de Assis e Shakespeare.
Nas duas obras, Otelo e Dom Casmurro, encontramos semelhanças no que tange à figura da mulher, pois Desdêmona e Capitu são personagens criadas e escritas por narradores masculinos, são esposas de homens ciumentos e têm perfil passivo. As duas são jovens apaixonadas que se tornam esposas devotadas à família. Seus perfis são aceitos socialmente nas respectivas realidades em que se inseriam, e que até hoje são bem recepcionados universalmente no patriarcado. Essa escolha é uma troca, o autor busca na comunidade o modelo e ao tempo em que o vivifica, devolve-o àquela comunidade ainda com mais força.
Assim, temos a literatura como arma em potencial para a divulgação de ideologias, inclusive, sobre a formação do ethos feminino numa determinada sociedade. Se buscarmos uma explicação psicanalítica para a formação desse paradigma de mulher perfeita, que sempre foi conveniente à sociedade patriarcal, teremos que o imaginário masculino constrói uma mulher que busca no homem a complementação do que lhe falta, para suprir seu complexo de castração, pela inferioridade fálica em relação a ele.
Por sua vez, ele tem natureza narcísica, ansiando, assim, por uma mulher onde se reflita sua perfeição, tal qual Narciso ao ver seu reflexo na água. É o horror da castração, que tem como mecanismo defensivo a busca de completude e a criação do fetiche, é a responsável pela fabricação de uma mulher ideal, enquanto perfeita e simétrica à face refletida do narcisismo masculino. Mas essa tal “completude perfeita”, para Lacan não existe, pois a ilusão de uma fusão entre o casal cai por terra, posto que, seguindo-se esse raciocínio, o caráter narcísico do homem lhe impede de perceber qualquer possível falibilidade sua e o faz exigir o mesmo da mulher, que, refletindo o amado, certamente irradiará imperfeições, que, diferentemente das dele, serão prontamente percebidas e repudiadas pelo varão.
Foi assim nos nossos casos postos a estudo, quando a suspeita de infidelidade das consortes representou uma possível imperfeição no reflexo deles próprios e embaçou a imagem antes contemplada com paixão, como no trecho que antecede o primeiro beijo de Bentinho e Capitu. É com essa cena de Dom Casmurro que fixaremos o imaginário feminino na literatura, com o caso de Capitu.
Incomodado com a insinuação de José Dias sobre Capitu, motivada por rixa pessoal com o pai dela, de que ela tinha “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, Bentinho, mesmo sem saber o que significava oblíqua, mirou-lhe no intuito de checar a acusação.
Quando, ainda possuído pelo reflexo narcísico da pureza e doçura de seus olhos, afirma: “Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá a idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia nos dias de ressaca.” (ASSIS, 2006, p. 48).
Isso demonstra o poder do fascínio dos olhos de Capitu sobre o jovem Bentinho, que buscava instintivamente a afirmação de sua masculinidade, sem, tampouco render-se sem resistência, como segue narrando: “Para não ser agarrado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve.” (ASSIS, 2006, p. 58).
Segue a análise na próxima publicação! Aproveite para reler Dom Casmurro enquanto isso!
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