Renato Ewerton de Melo

O algoritmo da empatia: Porque a humanização é a melhor lei.

Postado em 21 de janeiro de 2026 Por renatomelocst@gmail.com Renato Ewerton de Melo Pereira Silva, é advogado especializado em direito empresarial e atua por RDS ADVOGADOS ASSOCIADOS em todo o Brasil.

Há cerca de 70 mil anos, o Homo Sapiens desenvolveu uma habilidade única que o separou de todas as outras espécies: a capacidade de criar e acreditar em ficções. Deuses, nações e dinheiro são exemplos clássicos. Mas, no mundo moderno, uma das ficções mais poderosas que criamos é a “Pessoa Jurídica”.

Uma empresa é uma história que contamos uns aos outros. Ela existe no papel, nos registros legais e na nossa imaginação coletiva, mas ela não tem corpo, não sente dor e não sofre de ansiedade. O problema começa quando essa entidade fictícia interage com uma entidade biológica muito real: o empregado.

Durante a Revolução Industrial, tentamos tratar os humanos como tratávamos as máquinas a vapor: medindo eficiência, ajustando porcas e ignorando o resto. No século XXI, corremos o risco de tratar os humanos como algoritmos de processamento de dados. Em ambos os casos, o resultado é o mesmo: o conflito.

No mundo jurídico, chamamos isso de “reclamação trabalhista”. Mas, se olharmos através da lente da história e da biologia, um processo judicial é, muitas vezes, apenas o colapso tardio de uma cooperação que falhou muito antes, no nível humano.

A legislação trabalhista é um conjunto de regras criado para proteger a parte biologicamente vulnerável (o humano) da parte ficticiamente poderosa (a empresa). No entanto, nenhuma lei escrita em um código pode substituir o mecanismo mais antigo de regulação social que possuímos: a empatia.

Humanizar as relações de trabalho não é apenas um ideal romântico. É uma estratégia de sobrevivência pragmática.

Por que os empregados processam seus empregadores? Raramente é apenas pelo dinheiro. Na maioria das vezes, é por uma sensação de injustiça, de não ter sido ouvido, ou de ter sua dignidade ignorada.

O erro de muitos gestores e advogados é acreditar que um contrato bem redigido blinda uma relação ruim. Isso somente, é uma ilusão. Um contrato é uma realidade imaginada. Quando a realidade humana colide com a realidade imaginada, a conta geralmente chega no tribunal.

Portanto, a prevenção jurídica mais eficaz não está somente em cláusulas contratuais mais rígidas, mas na capacidade de reconhecer a consciência do outro. Ouvir ativamente, compreender as limitações individuais e tratar o erro não como uma falha de sistema, mas como uma etapa do aprendizado, são atitudes que desarmam o conflito antes que ele precise de um juiz.

Num futuro dominado pela Inteligência Artificial, muitas tarefas técnicas serão automatizadas. Mas a capacidade de entender o sofrimento alheio e de construir confiança continuará sendo uma exclusividade humana.

Se as empresas quiserem evitar o custo financeiro e reputacional dos tribunais, elas precisam entender uma lição simples: a cooperação só funciona quando é baseada na confiança. E não se constrói confiança com uma Pessoa Jurídica; constrói-se confiança entre pessoas humanas.

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