Há falas que se refutam a si mesmas pela simples circunstância de serem ditas em voz alta. Quando o jornalista Paulo Figueiredo — neto do último general que presidiu o país sob a ditadura militar, detalhe que a história insiste em não deixar esquecer — afirma que as mulheres “votam estatisticamente muito mal”, que as casadas apenas repetem o voto dos maridos e que as solteiras, essas, podem “arrancar os pentelhos das calcinhas”, ele não formula uma tese: exibe um espólio. O espólio de uma mentalidade que se imaginava sepultada e que, ao emergir, traz consigo o cheiro de mofo dos arquivos que a democracia já encerrou.
Comecemos pela pretensa ciência. O locutor invoca a estatística como quem invoca um santo de devoção particular — sem, contudo, apresentar um único dado, uma única pesquisa, um único estudo. É a estatística sem números, a matemática sem contas, o argumento de autoridade desprovido de autoridade e de argumento. Curiosa forma de rigor: a de quem confunde a própria opinião com um teorema. Se ao menos houvesse tabelas, teríamos o trabalho de contestá-las. Diante do vazio metodológico, resta apenas registrar que a grosseria não vira dado por ser dita com convicção.
Convém, então, oferecer-lhe aquilo que lhe falta: um pouco de história. A emancipação política da mulher brasileira não foi concessão de cavalheiros generosos, mas conquista arrancada — para usar seu próprio verbo, em acepção bem mais nobre — do solo duro do preconceito. Muito antes de 1932, Nísia Floresta já traduzia, ainda no século XIX, a insurgência contra a tutela masculina. Vieram depois Bertha Lutz e a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, fundada em 1922, que transformaram a reivindicação difusa em movimento organizado. Em 1928, no Rio Grande do Norte, Celina Guimarães Viana tornou-se a primeira eleitora do país, e Alzira Soriano, a primeira prefeita eleita de toda a América Latina — feitos que antecederam a própria legislação nacional e a envergonharam pela demora. Em 1932, o Código Eleitoral consagrou o sufrágio feminino; em 1934, Carlota Pereira de Queirós ocupou uma cadeira na Câmara. Cada um desses nomes é uma refutação anterior à ofensa: mulheres que souberam votar — e governar, e legislar — quando a lei ainda relutava em permiti-lo.
O mais revelador, porém, é a ancestralidade do argumento. Em 1887, o senador norte-americano George Vest sustentava, da tribuna, que as mulheres eram “essencialmente emocionais” e por isso impróprias ao voto racional. Quase um século e meio depois, o discurso ressurge quase idêntico, apenas rebaixado no vocabulário: onde o velho senador ainda buscava eufemismos, o comentarista contemporâneo prefere a calcinha e o palavrão. Houve, reconheça-se, uma evolução — na direção do esgoto. É o que sucede quando a chamada janela de Overton se desloca e o indizível de ontem vira o espetáculo de hoje: não se trata de coragem intelectual, mas de deseducação normalizada.
E não se trata, tampouco, de excentricidade isolada de um comentarista brasileiro. A fala inscreve-se, com desconcertante fidelidade, num movimento extremista que ganha fôlego no estrangeiro e, particularmente, nos Estados Unidos. Ali, sob o guarda-chuva do movimento que alçou Donald Trump ao poder, influenciadores e líderes religiosos de extrema-direita têm defendido abertamente a revogação da Décima Nona Emenda — ratificada há mais de um século — e a criação de barreiras ao voto feminino. Não são vozes marginais: o supremacista branco Nick Fuentes, um dos que se opõem ao direito das mulheres ao voto, já foi recebido por Trump para jantar em Mar-a-Lago, e a pregação é reforçada por pastores fundamentalistas como Doug Wilson e Dale Partridge. O projeto tem, inclusive, roupagem legislativa: uma proposta patrocinada pelos republicanos exigiria documentos como a certidão de casamento para votar, o que atingiria em cheio as mulheres — a maioria — que adotaram o sobrenome do marido e já não portam o nome da certidão de nascimento. Eis o retrato completo: a misoginia deixa de ser deslize de linguagem e assume a forma de política pública. O que Figueiredo balbucia entre vulgaridades, outros já redigem em minutas de lei. É a mesma orquestra; ele apenas toca o naipe mais barulhento.
Há ainda a insinuação de que a mulher casada seria mera extensão eleitoral do
marido — um voto sem sujeito, um apêndice doméstico da vontade alheia. Ironicamente, foi um homem casado, o próprio senador que o articulista dizia defender, quem primeiro se ofendeu, lembrando que a tese aprisionava também a sua esposa nesse “pacote de mulheres que não sabem votar”. Quando o insulto respinga em quem se pretendia agradar, percebe-se enfim que não havia estratégia: havia apenas desprezo, mal disfarçado de análise.
Que fique claro o que está verdadeiramente em jogo. O voto não é um favor outorgado a quem exiba credenciais de racionalidade aprovadas por tribunos de rede social. O voto é o átomo da soberania popular, o instante em que cada cidadão — homem ou mulher, casado ou solteiro — se declara igual a todos os demais perante a República. A Constituição de 1988 erigiu a cidadania e a dignidade da pessoa humana em fundamentos do Estado; sugerir que metade da população vota “mal” é, no rigor dos termos, propor a supressão dessa metade. Não é opinião ousada: é projeto autoritário — e, como se viu, projeto de exportação.
Encerro sem indignação teatral, que seria dar-lhe importância excessiva. Digo apenas isto: a democracia brasileira já sobreviveu a generais; sobreviverá, com folga, a netos de generais que confundem tribuna com botequim e importam do estrangeiro os seus preconceitos. As mulheres deste país votam há quase um século — e votam, sobretudo, contra os valores ostentados no seu infame posicionamento.
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