Nas madrugadas insones de tantos de nós, advogados e advogadas, onde o silêncio das cidades adormecidas contrasta com a inquietude da consciência em luta, reside uma virtude pouco celebrada, mas absolutamente essencial: a diligência. Diligência que não nasce da pressa, mas do cuidado. Não é ansiedade, é zelo. É o ato contínuo de abrir processos, examinar provas, alinhar teses e, acima de tudo, não esquecer que atrás de cada número, de cada nome nos autos, há uma vida em suspensão, esperando por justiça.
Ser advogado é um exercício diário de fidelidade a um pacto invisível com o Direito. Não com o direito frio das letras mortas, mas com aquele vivo, que pulsa nas ruas, nas dores e nas esperanças das pessoas. O compromisso do advogado com o Direito é, antes de tudo, um compromisso com a civilização. Em um tempo onde a desinformação e os julgamentos sumários se multiplicam nas redes e nos balcões, é tarefa do advogado lembrar que o devido processo legal não é um obstáculo — é o caminho. Que a ampla defesa não é um privilégio — é um pilar.
Esse compromisso, no entanto, seria estéril se não estivesse ancorado em uma ética inabalável. A beca invisível do advogado é feita de honestidade, de lealdade processual, de respeito às instituições, mesmo quando as instituições falham. E elas falham. Às vezes por desatenção, outras por conveniência. Mas é justamente nessas horas que o caráter do profissional da advocacia se revela: quando, mesmo podendo calar, escolhe falar. Quando, mesmo podendo ceder ao cinismo, insiste na lisura. Ética que não se negocia, não se adapta, não se dobra. Porque sem ela, tudo o que se constrói vira ruína.
Não é fácil ser advogado. Nunca foi. Mas em tempos de crescente hostilidade ao exercício da defesa — quando prerrogativas são vistas como privilégios e a figura do advogado, equivocadamente, como um entrave —, é preciso coragem. Destemor. A coragem de enfrentar delegados que negam acesso aos autos. Juízes que não recebem, autoridades que intimidam, instituições que silenciam. Tribunais encastelados. A coragem de saber que, mesmo quando se está sozinho em uma audiência, se representa toda uma classe. E, mais do que isso, se carrega nas palavras a própria ideia de Justiça.
Destemido não é quem grita. É quem resiste. É quem, diante da arrogância do poder, afirma com serenidade: “Aqui, doutor, a lei também se aplica”. É quem, diante de uma sala de audiência onde todos o olham com desdém por defender um acusado, continua com a cabeça erguida, porque sabe que o direito à defesa é sagrado — e não se escolhe quem se defende, mas como se defende.
Ser advogado, portanto, é ser sentinela. Sentinela da Constituição, dos direitos humanos, da igualdade de tratamento. Sentinela da esperança de que o Direito, mesmo tardio, ainda possa valer a pena. Por isso, quando um colega tem seu escritório invadido sem mandado, quando uma advogada é desrespeitada em uma sala de audiência por seu gênero ou tom de voz, quando um defensor é tratado como cúmplice pelo simples ato de exercer a profissão — não se trata de uma ofensa isolada. Trata-se de um golpe na espinha dorsal do Estado Democrático de Direito. E é dever da advocacia reagir, sempre! Não com ódio, mas com firmeza. Não com violência, mas com mobilização.
Nesse sentido, as prerrogativas não são medalhas, nem escudos pessoais. São instrumentos da cidadania. São garantias do cidadão que, por meio de seu advogado, tem voz. Quem viola prerrogativas, portanto, não ataca o advogado — ataca o direito de defesa, ataca o processo justo, ataca a própria democracia.
Por isso, é tão importante cultivar a união da classe. O espírito de corpo, não como conluio, mas como rede de proteção. O jovem advogado que inicia sua jornada precisa saber que não está só. Que há colegas vigilantes, e dispostos a agir. Precisa saber que, mesmo diante dos embates mais duros, há uma casa — a OAB — onde seu grito será ouvido. Onde sua dignidade será defendida. É isso que toda a advocacia deseja.
Ao fim do dia, o advogado volta para casa talvez sem a glória, talvez sem o reconhecimento, talvez sem sequer ter vencido a causa. Mas volta com a consciência de que fez o que pôde — e, muitas vezes, o que ninguém mais quis fazer. Com diligência, com ética, com compromisso e com coragem. Virtudes que não se aprendem apenas nos livros, mas que se forjam no dia a dia do foro, nos corredores dos fóruns, nos embates com o arbítrio, na defesa das próprias prerrogativas.
E se ainda houver alguma dúvida sobre o valor dessa profissão, basta lembrar o que disse Rui Barbosa: “A pior ditadura é a ditadura do Poder Judiciário. Contra ela, não há a quem recorrer”. Por isso o advogado é tão essencial. Porque ele não é o fim da linha. Ele é a linha que impede o abismo.
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