Final de ano sempre traz aquela sensação de recomeço, quase como apertar um botão de reset. É Natal: época em que, de repente, todo mundo parece carregar o coração maior que o próprio corpo. É o período dos bons atos, das campanhas de solidariedade, das postagens com frases bonitas e do comportamento exemplar, quase como se a generosidade tivesse data marcada para aparecer.
Mas, no meio dessa onda de luzes, cores e sorrisos temporários, eu não consigo deixar de olhar para o contraponto que insiste em atravessar as ruas todos os dias do ano: as pessoas que têm “a vida dentro de uma mochila”.
Gente que não some quando o Natal acaba. Gente que dorme nos viadutos, nas praças, nas calçadas quentes de dia e geladas de madrugada. Gente que carrega o mundo em dois ou três objetos empacotados às pressas porque, para quem vive em situação de rua, a única forma de casa é aquilo que se pode carregar nas costas.
E aí me pergunto: ao longo de todo o ano, quem realmente vê essas pessoas? Quem enxerga para além do incômodo visual, para além do estigma, para além da pressa?
São vidas expostas ao frio, à fome, às doenças, à violência física e simbólica, à vigilância constante e à vulnerabilidade extrema. São corpos que ocupam espaços públicos, mas que, paradoxalmente, parecem não ter lugar nenhum.
E é justamente nesse ponto que a Constituição Federal grita, ainda que muitos insistam em não ouvir. O artigo 1º, III, que coloca a dignidade da pessoa humana como fundamento da República, não é decorativo. Ele não vale só para quem tem CEP, RG, emprego ou sobrenome. A dignidade é um direito de todos, inclusive e sobretudo, daqueles que mais sofrem com a ausência do Estado.
O artigo 6º também não deixa dúvidas: moradia, alimentação e assistência aos desamparados são direitos sociais. Direitos. Não favores. Não caridade sazonal. E se são direitos, é porque há um dever correspondente, um dever que não pode ser maquiado com campanhas de dezembro ou com ações pontuais que aliviam culpas, mas não transformam realidades.
A verdade é dura, mas precisa ser dita: não podemos terceirizar para o Natal aquilo que é responsabilidade coletiva durante os 365 dias do ano.
Quando penso nas pessoas que têm a vida dentro de uma mochila, penso também no quanto cada uma delas carrega histórias que não conhecemos, dores que não imaginamos e resistências que não aprendemos a admirar. Penso no quanto a sociedade falha quando escolhe olhar para o outro apenas quando convém.
Se recomeço é o que tanto desejamos no final do ano, que tal recomeçar a enxergar? Recomeçar a exigir políticas públicas reais? Recomeçar a lembrar que dignidade não pode ser acessório? Recomeçar a tratar pessoas como pessoas, e não como paisagens urbanas incômodas?
Que o Natal não seja um ponto fora da curva, mas o início de um compromisso contínuo, O DE CONSTRUIR UM PAÍS ONDE NINGUÉM PRECISE GUARDAR SUA VIDA EM UMA MOCHILA PARA SOBREVIVER.
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