Natali de Moura Nascimento

A vida dentro de uma mochila

Postado em 24 de dezembro de 2025 Por Natali de Moura Nascimento Advogada, mestranda em Direitos Humanos pela UFPE, membro da Comissão de Defesa da Criança e do Adolescente e atuante no enfrentamento à violência de gênero com perspectiva interseccional.

Final de ano sempre traz aquela sensação de recomeço, quase como apertar um botão de reset. É Natal: época em que, de repente, todo mundo parece carregar o coração maior que o próprio corpo. É o período dos bons atos, das campanhas de solidariedade, das postagens com frases bonitas e do comportamento exemplar, quase como se a generosidade tivesse data marcada para aparecer.

Mas, no meio dessa onda de luzes, cores e sorrisos temporários, eu não consigo deixar de olhar para o contraponto que insiste em atravessar as ruas todos os dias do ano: as pessoas que têm “a vida dentro de uma mochila”.

Gente que não some quando o Natal acaba. Gente que dorme nos viadutos, nas praças, nas calçadas quentes de dia e geladas de madrugada. Gente que carrega o mundo em dois ou três objetos empacotados às pressas porque, para quem vive em situação de rua, a única forma de casa é aquilo que se pode carregar nas costas.

E aí me pergunto: ao longo de todo o ano, quem realmente vê essas pessoas? Quem enxerga para além do incômodo visual, para além do estigma, para além da pressa?

São vidas expostas ao frio, à fome, às doenças, à violência física e simbólica, à vigilância constante e à vulnerabilidade extrema. São corpos que ocupam espaços públicos, mas que, paradoxalmente, parecem não ter lugar nenhum.

E é justamente nesse ponto que a Constituição Federal grita, ainda que muitos insistam em não ouvir. O artigo 1º, III, que coloca a dignidade da pessoa humana como fundamento da República, não é decorativo. Ele não vale só para quem tem CEP, RG, emprego ou sobrenome. A dignidade é um direito de todos, inclusive e sobretudo, daqueles que mais sofrem com a ausência do Estado.

O artigo 6º também não deixa dúvidas: moradia, alimentação e assistência aos desamparados são direitos sociais. Direitos. Não favores. Não caridade sazonal. E se são direitos, é porque há um dever correspondente, um dever que não pode ser maquiado com campanhas de dezembro ou com ações pontuais que aliviam culpas, mas não transformam realidades.

A verdade é dura, mas precisa ser dita: não podemos terceirizar para o Natal aquilo que é responsabilidade coletiva durante os 365 dias do ano.

Quando penso nas pessoas que têm a vida dentro de uma mochila, penso também no quanto cada uma delas carrega histórias que não conhecemos, dores que não imaginamos e resistências que não aprendemos a admirar. Penso no quanto a sociedade falha quando escolhe olhar para o outro apenas quando convém.

Se recomeço é o que tanto desejamos no final do ano, que tal recomeçar a enxergar? Recomeçar a exigir políticas públicas reais? Recomeçar a lembrar que dignidade não pode ser acessório? Recomeçar a tratar pessoas como pessoas, e não como paisagens urbanas incômodas?

Que o Natal não seja um ponto fora da curva, mas o início de um compromisso contínuo, O DE CONSTRUIR UM PAÍS ONDE NINGUÉM PRECISE GUARDAR SUA VIDA EM UMA MOCHILA PARA SOBREVIVER.

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