Aline Alves dos Santos

O povo Xukuru do Ororubá — memória, terra e resistência em Pesqueira

Postado em 05 de novembro de 2025 Por Aline Alves dos Santos Graduanda do 3º período de Direito pela FICR e orgulhosamente indígena Xukuru do Ororubá. Com dedicação aos estudos, busca adquirir experiência prática e construir uma carreira sólida no Direito. Sua trajetória é inspirada na força e nos valores de sua etnia.

A história do povo Xukuru do Ororubá é, ao mesmo tempo, história do Brasil e espelho do que o Estado brasileiro e setores privados fizeram com povos indígenas: expropriação, violência, dispersão e, sempre, a luta para recompor um laço rompido com a terra. Os Xukuru habitam a Serra do Ororubá, no agreste pernambucano, e mantêm registros e memórias que remontam ao período colonial. Desde o século XVI, sua presença naquela região foi marcada por conflitos com colonizadores e por sucessivas tentativas de expulsão do seu território ancestral — processos que não terminaram no passado e seguem repercutindo no presente.  

O cerne da luta Xukuru tem sido a reconquista e a demarcação da terra. Durante décadas, a dispersão forçada — com famílias trabalhando como mão de obra temporária nas fazendas vizinhas e aldeias desarticuladas — tentou apagar rituais, instituições sociais e práticas que sustentam a identidade coletiva xukuru. Ao mesmo tempo, lideranças locais articularam um projeto de retorno e organização comunitária que, em várias fases, virou política de resistência: retomadas, mobilizações junto a órgãos públicos e alianças com redes de apoio acadêmicas e de direitos humanos. É essa revitalização que permitiu, por exemplo, a recomposição de aldeias e a persistência de rituais como o Toré, a pajelança e a organização por cacicados.  

A demarcação formal da Terra Indígena Xukuru do Ororubá foi um marco, mas não encerrou as disputas: o território homologado (iniciado por processos administrativos e reconhecido judicial e administrativamente em etapas) tornou-se alvo de pressões políticas e judicializações. Reclamações de fazendeiros, pedidos de reintegração e ações judiciais que se estendem por anos tornaram a posse efetiva vulnerável e fragmentaram a segurança da comunidade. Assim, a homologação — quando chegou — significou vitória simbólica e administrativa, mas não absolviu os Xukuru de ameaças, violações e de um judiciário que, muitas vezes, transformou a disputa por terra em litígio interminável.  

Além do litígio fundiário, há um componente de violência política que acompanha o caso Xukuru. Relatos documentados por organizações de direitos humanos e pesquisas acadêmicas apontam acusações e processos contra lideranças indígenas, além da atuação de pistoleiros e interesses econômico-políticos que tensionam a segurança física e a coesão interna do povo. A criminalização de lideranças, a impunidade quanto a agressões e o uso do aparato judicial e policial para reordenar disputas territoriais são marcas que tornam a luta pela terra também uma luta por justiça e por reconhecimento da dignidade.  

No campo da cultura e do modo de vida, os Xukuru vêm resgatando práticas agrícolas tradicionais que articulam conhecimento ancestral com técnicas de manejo do semiárido — um ponto de grande relevância hoje, na agenda ambiental e de segurança alimentar. Projetos de restauração de áreas degradadas, conservação do solo e da água e a valorização de saberes locais mostram como a retomada territorial não é apenas uma reivindicação identitária, mas também uma proposta concreta de manejo sustentável em regiões fragilizadas pela monocultura e pelo desmatamento. Essas práticas demonstram que a questão indígena extrapola o aspecto etnocultural e entra nas políticas públicas de clima, recuperação ambiental e soberania alimentar.  

Como opinião: reconhecer a história dos Xukuru do Ororubá é admitir um débito civilizacional. Não se trata apenas de aplicar leis e decretos: é preciso transformar a demarcação num compromisso efetivo com a vida comunitária — garantir acesso à saúde, educação diferenciada, segurança contra ameaças externas e políticas públicas que fortaleçam a economia local sob os termos dos próprios Xukuru. A reparação histórica exige proteção jurídica firme, investigação e responsabilização por atos de violência, e suporte técnico que parta do protagonismo indígena.  

Outro ponto inadiável é a necessidade de que universidades, institutos de pesquisa e órgãos públicos deem voz e espaço para as narrativas Xukuru. A produção acadêmica já apontou caminhos — registros orais, etnografias, análises históricas — que ajudam a legitimar reivindicações e a contrapor narrativas que tentam invisibilizar o caráter ancestral daquela terra. Apoiar pesquisas conduzidas com participação indígena e proteger o direito ao próprio livro de memórias e história é fortalecer a democracia cultural do país.  

Por fim, a história do Xukuru do Ororubá nos lembra que a defesa dos direitos indígenas não é causa “setorial”: é defesa da diversidade, da justiça e de um projeto de nação que reconheça o plural. Enquanto jornalistas, juristas, ativistas e cidadãos, precisamos ir além do gesto simbólico e cobrar políticas públicas e decisões judiciais que assegurem, de fato, a posse, a segurança e a autonomia dos povos originários. Somente assim a Serra do Ororubá — e seus guardiões — poderão respirar com tranquilidade, cultivar seu modo de ser e oferecer ao país um exemplo vivo de como memória, terra e futuro podem conviver.

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