Fui oficial do Exército Brasileiro por quase 14 anos e pós graduado em Ciências Militares, pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO), e ouso deixar aqui algumas considerações combinando os conceitos aprendidos na teoria e no terreno enquanto na ativa da Força Terrestre e na Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro. Faço uma ilação usando conceitos básicos, da guerra convencional adaptada ao combate aos narcoterroristas.
O “aproveitamento do êxito” é a operação que ocorre após um ataque bem-sucedido, envolvendo um avanço rápido e contínuo para explorar a vantagem e obter objetivos estratégicos, como a destruição ou cerco de tropas inimigas. A “perseguição” é um tipo de operação ofensiva, muitas vezes realizada em conjunto com o aproveitamento do êxito, cujo objetivo é impedir a retirada organizada do inimigo e capturar ou destruir suas forças em retirada.
Com base nos conceitos militares de “aproveitamento do êxito” e “perseguição”, é possível desenvolver uma estratégia policial integrada que vá além da ocupação pontual de territórios dominados por grupos criminosos armados (narcoterroristas), garantindo retomada territorial efetiva e duradoura. Abaixo, proponho uma abordagem estratégica em cinco fases, adaptando os princípios ao contexto das operações de segurança pública:
Estratégia Integrada de Retomada Territorial – “Operação Progresso Contínuo”
1. Ataque Inicial – Choque e Ruptura
– Objetivo: Romper o domínio local do tráfico com ações de alto impacto, visando desorganizar estruturas de comando e logística.
– Ações:
– Intervenção tática com inteligência precisa.
– Uso de forças especiais (CORE, BOPE, Choque) para desarticulação de lideranças e captura de armamento pesado.
– Neutralização de comunicações e logística criminosa.
2. Aproveitamento do Êxito – Expansão e Consolidação
– Objetivo: Capitalizar o êxito da operação inicial para avançar rapidamente, consolidando presença do Estado.
– Ações:
– Imediata entrada de forças de patrulhamento territorial fixo (PMERJ – Batalhões de Área, UPP, etc.).
– Estabelecimento de bases operacionais avançadas com atuação contínua.
– Instalação de sistemas de monitoramento (câmeras, drones) e controle de acesso.
3. Perseguição – Desmantelamento e Interdição
– Objetivo: Impedir fuga e reagrupamento das lideranças criminosas e impedir a reocupação.
– Ações:
– Monitoramento de rotas de fuga e interceptação (ações de GAT, PRF e apoio aéreo).
– Prisão de lideranças foragidas em cidades vizinhas ou zonas rurais.
– Investigação e bloqueio de recursos financeiros, bens e canais de abastecimento.
4. Ocupação Social – Reconstrução Institucional
– Objetivo: Garantir que o território seja ocupado pelo Estado e pela cidadania, e não volte ao domínio paralelo.
– Ações:
– Entrada coordenada de serviços públicos: saúde, educação, saneamento.
– Reativação de equipamentos públicos (escolas, CRAS, postos de saúde).
– Projetos de inclusão social, geração de renda e juventude.
5. Manutenção e Comunicação Estratégica
– Objetivo: Manter a moral da população e das forças de segurança.
– Ações:
– Comunicação pública transparente sobre o avanço da operação.
– Envolvimento da população local como colaboradora da retomada (programas de denúncia, canais diretos com a polícia).
– Avaliação periódica de indicadores de segurança, com ajustes táticos.
Princípios Essenciais
– Velocidade e continuidade: não dar espaço para o inimigo se reorganizar.
– Força móvel e flexível: uso integrado de inteligência, policiamento e repressão qualificada.
– Comando unificado e iniciativa: líderes operacionais com autonomia e visão estratégica.
– Legitimidade social: a retomada só é completa se houver apoio da população local.
Conclusão:
Inspirada nos conceitos de guerra de manobra, essa estratégia propõe que a ação policial não se limite à incursão pontual, mas sim avance para o controle sustentável do território, garantindo a presença contínua do Estado e impedindo o reagrupamento dos grupos criminosos. Segurança pública exige planejamento tático, mas sobretudo visão estratégica e ação integrada.
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