Bruna Gadelha

Climate Week NYC 2025: Avanços jurídicos, financiamento florestal e a liderança do Brasil em uma transição energética justa

Postado em 24 de setembro de 2025 Por Bruna Gadelha Mestranda em Direito Empresarial e Financeiro pela The George Washington University, Pesquisadora em Direito Ambiental, Energia e Finanças (GWU), Membro da Comissão de Direito da Energia da OAB/PE e Embaixadora do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável nº 10 da ONU (redução das desigualdades).

A Climate Week NYC 2025 trouxe sinais encorajadores de que a governança climática global está começando a caminhar para maior responsabilidade e inclusão. Pela primeira vez, os compromissos de descarbonização e transição justa foram acompanhados de propostas inovadoras de financiamento e de reconhecimento da necessidade de mecanismos jurídicos robustos. Entre as iniciativas mais notáveis está o Tropical Forests Forever Facility (TFFF), proposto pelo Brasil: um fundo patrimonial de US$ 125 bilhões, com aportes soberanos e privados, destinado a recompensar países que preservem florestas tropicais. O anúncio de que o Brasil será o primeiro a aportar recursos próprios demonstra liderança concreta e inaugura um precedente positivo para a mobilização de capitais em larga escala. Outros países, como China, Reino Unido e França, já sinalizaram apoio inicial, reforçando o caráter multilateral da proposta.

Esse movimento encontra respaldo jurídico sólido. O artigo 4º do Acordo de Paris impõe obrigações de ambição crescente às Partes, e a Constituição brasileira reforça essa diretriz ao consagrar o meio ambiente equilibrado como direito fundamental (artigo 225) e ao integrar a proteção ambiental à ordem econômica (artigo 170). Além disso, princípios como o da proibição do retrocesso ambiental e da equidade intergeracional obrigam a salvaguardar as condições de vida das gerações futuras. Acrescenta-se os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável nº 10 da ONU (Redução das Desigualdades), que estabelece a diminuição das desigualdades como requisito para qualquer transição energética legítima. Esses instrumentos não são apenas aspirações éticas, mas fundamentos jurídicos que legitimam a exigência de transparência, aplicabilidade e inclusão nas finanças climáticas e nas políticas energéticas.

Também merece destaque o progresso no setor privado. O Business Breakthrough Barometer da Reuters revelou que 91% dos líderes empresariais mantiveram ou aumentaram investimentos em transições para emissões líquidas zero, enquanto 92% reconhecem que o custo da inação supera o custo da transição. Esse índice global mede o grau de compromisso corporativo com metas climáticas. Complementarmente, os Transition Finance Indicators da Morgan Stanley Capital International (MSCI), que avaliam o alinhamento das empresas com trajetórias científicas consistentes rumo à neutralidade climática, ajudam a identificar onde ainda há espaço para melhoria. Embora indiquem que muitas companhias permaneçam desalinhadas, o simples fato de tais métricas estarem sendo utilizadas e debatidas em um fórum como a Climate Week demonstra o reconhecimento crescente de que metas climáticas precisam ser transparentes, verificáveis e juridicamente relevantes. Dados recentes indicaram, no entanto, que quase todas as grandes empresas ainda não alinharam seus investimentos a um caminho de 1,5°C, evidenciando a urgência de marcos legais que tratem o desalinhamento não como falha reputacional, mas como risco jurídico.

A mensagem central desta semana é clara: avanços institucionais e corporativos estão acontecendo, e eles podem ser multiplicados se acompanhados de marcos legais mais robustos. O TFFF aponta um caminho inovador para financiar a preservação florestal com mecanismos de resultado mensurável, em sintonia com o êxito recente da entrega de US$ 1,86 bilhão do Forest Tenure Pledge a povos indígenas e comunidades locais, superando a meta estabelecida em 2021. O setor privado, por sua vez, começa a reconhecer que a transparência e a responsabilidade são parte essencial da transição energética. Para o Brasil, a liderança não é mais apenas retórica: o aporte inicial de recursos próprios mostra que o país está disposto a traduzir discurso em ação, apoiado por avanços concretos como a redução de mais de 20% no desmatamento da Amazônia no último ano.

Outro marco celebrado em Nova York foi a entrada em vigor do High Seas Treaty, primeiro tratado internacional de proteção da biodiversidade em águas internacionais. Esse acordo histórico demonstra que compromissos ambientais juridicamente vinculantes são possíveis e eficazes, oferecendo um exemplo claro de como a comunidade internacional pode transformar ambição em obrigações legais. A lição é direta: o mesmo rigor precisa ser aplicado às finanças climáticas e à preservação florestal, para que promessas se convertam em resultados concretos e permanentes.

O desafio agora é consolidar esse momento em normas sólidas: transformar compromissos em deveres executáveis, atrelar cada investimento climático a mecanismos de supervisão claros e assegurar salvaguardas sociais que coloquem as comunidades no centro das decisões. Se esse passo for dado, o Brasil poderá não apenas reforçar sua credibilidade internacional, mas também provar que desenvolvimento sustentável pode ser juridicamente exigível, socialmente inclusivo e economicamente sólido. A Climate Week NYC 2025 deixa como saldo uma mensagem positiva: já existem bases concretas para avançar, e cabe aos países e empresas consolidarem esse impulso em ações permanentes.

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