Maria Eduarda Francisca Santos da Cruz

Rol taxativo: Quando o lucro fala mais alto que a vida

Postado em 24 de setembro de 2025 Por Maria Eduarda F. S. da Cruz dvogada especialista em Direito Médico e da Saúde e Direito Bancário, membra da Comissão de Direito Médico e da Saúde da OAB Jaboatão.

Na última Quinta-Feira, 18/09/2025, o Supremo Tribunal Federal bateu o martelo: o rol de procedimentos da ANS é taxativo mitigado. Em termos simples, isso significa que a lista oficial da Agência Nacional de Saúde se torna uma espécie de “teto” para o que os planos de saúde são obrigados a cobrir. Fora do rol, só em situações muito específicas, com muitos critérios difíceis de serem cumpridos, especialmente pela população mais carente.

Na teoria, o STF tenta equilibrar: proteger o consumidor e dar previsibilidade às operadoras. Na prática? É um retrocesso que custa vidas.

Os 5 critérios estabelecidos pelos ministros são:

  1. Prescrição por médico ou odontólogo assistente habilitado;
  2. Inexistência de negativa expressa da ANS ou de pendência de análise em proposta de atualização do rol
  3. Ausência de alternativa terapêutica adequada para a condição do paciente no rol de procedimentos da ANS
  4. Comprovação de eficácia e segurança do tratamento à luz da medicina baseada em evidências de alto grau ou ATS, necessariamente respaldadas por evidências científicas de alto nível.
  5. Existência de registro na Anvisa.
  6. (Fonte: https://www.migalhas.com.br/quentes/440412/stf-admite-hipoteses-de-cobertura-fora-do-rol-da-ans-e-fixa-criterios)

O rol taxativo mata silenciosamente

Pode parecer duro, mas é a realidade. O rol taxativo mata porque nega ao paciente o direito de lutar com as melhores armas disponíveis. A medicina evolui todos os dias: novos tratamentos surgem, novas técnicas são testadas, novas drogas são registradas. Mas o rol da ANS é lento, burocrático, e em muitos casos, atrasado em relação à ciência.

Isso significa que o paciente com câncer, por exemplo, pode ter uma medicação inovadora ao alcance das mãos — prescrita pelo seu médico, respaldada por evidências científicas — e ainda assim ouvir do plano de saúde: “não está no rol, não vamos cobrir.”
O tempo que a doença não espera, a burocracia exige. E nesse intervalo, vidas se perdem.

O rol taxativo despreza a soberania médica

O médico especialista, que estuda por anos, que conhece a história clínica e as necessidades específicas do paciente, perde autoridade. Sua prescrição passa a ser apenas mais um papel — facilmente descartado pela negativa da operadora.

Na prática, a mensagem é clara: a planilha de custos do plano de saúde vale mais que o parecer de um especialista. O lucro da empresa se sobrepõe ao direito do paciente.

E qual a consequência? Pacientes desamparados e famílias desesperadas por não conseguirem custear o seu tratamento adequado – aquele prescrito pelo médico especialista.

O rol taxativo, funciona como uma barreira invisível, separando a população do tratamento, dificultando o acesso à saúde de qualidade, e limitando a atuação dos médicos na sua própria área de conhecimento.

Os critérios estabelecidos pelo STF podem parecer técnicos, mas escondem uma lógica cruel: Quanto mais difícil o caminho, menos pacientes conseguem trilhá-lo. Quanto mais burocracia, mais desistências, e quanto mais barreiras, mais vidas ficam pelo caminho.

É a negativa de cobertura travestida de legalidade. Uma forma “chique” de dizer não.

A falsa promessa da segurança jurídica

Defensores do rol taxativo falam em segurança jurídica, previsibilidade para o mercado, equilíbrio do sistema. Mas a que custo?

Se o equilíbrio do sistema depende de restringir acesso ao tratamento, então estamos admitindo que a saúde suplementar só se sustenta quando algumas vidas ficam de fora. É uma conta fria: preservar o caixa das operadoras em troca de fragilizar pacientes.

A pergunta é: até que ponto o avanço e o lucro se sobrepõem à vida?

Essa taxatividade, fere frontalmente o direito constitucional de acesso à saúde. Sendo completamente individualizados, como os médicos terão autonomia de prescrição de tratamentos, se estão limitados a uma lista que em muitos casos está desatualizada?

O rol taxativo, nega a ciência. E isso pode custar muito caro – mas não para as operadoras de plano de saúde.

O rol taxativo não protege — ele exclui. O rol taxativo não equilibra — ele sacrifica e seleciona. O rol taxativo não salva o sistema — ele fere profundamente pacientes e os planos de saúde seguem aumentando os seus lucros.

Colocar a vida humana em segundo plano diante de uma lista burocrática é abrir mão de nossa humanidade e soberania. É aceitar que, no Brasil, a saúde pode ser tratada como mercadoria e o paciente como número.

Se a Constituição garante o direito à saúde, não podemos aceitar que a decisão final sobre um tratamento seja ditada por uma lista que serve mais ao lucro do que à vida.

O rol taxativo pode matar. E, enquanto fingirmos que isso é apenas uma questão técnica, continuaremos enterrando pessoas que poderiam estar vivas — se o direito delas de se tratar tivesse sido respeitado.

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