Leticia Ferreira

Comunicação comunitária, invisibilidade das vítimas e democracia: quando a mídia de bairro se torna espaço de justiça social

Postado em 26 de março de 2026 Por Leticia Ferreira Da Silva Formada em Publicidade e Propaganda e acadêmica de Direito. Atua de forma independente, com produção acadêmica voltada ao Direito Penal e Processual Penal. Possui artigos publicados em revista digital da OAB, com escrita crítica, clara e comprometida com a justiça.

A visibilidade pública de determinadas narrativas sociais é elemento fundamental para a consolidação das democracias contemporâneas. A possibilidade de expressar experiências, denunciar injustiças e participar do debate coletivo constitui um dos pilares do exercício da cidadania.

Entretanto, a realidade social demonstra que o acesso à visibilidade midiática não ocorre de forma igualitária. Muitas vítimas enfrentam dificuldades para inserir suas  narrativas nos grandes meios de comunicação ou para obter espaço em estruturas institucionais formais.

A experiência relatada no livro o crime do inquérito policial ao tribunal do júri ilustra de forma significativa essa realidade. Ao narrar sua trajetória  na busca por justiça, Allira Lira destaca as dificuldades enfrentadas para tornar pública sua história e para encontrar espaço de escuta social.

Nesse contexto, a autora reconhece o papel fundamental do canal comunitário Camaragibe Agora, conduzido pelo jornalista Eli Cruz,  como um dos principais meios de comunicação que lhe ofereceram espaço para apresentar sua narrativa e dialogar com a comunidade tornando pública sua história.

Essa experiência revela como a comunicação comunitária pode funcionar como mecanismo de ampliação da esfera pública, permitindo que experiências individuais se transformem em debates coletivos.

2 – Comunicação, Esfera Pública e Democracia

A relação entre a comunicação e a democracia tem sido amplamente discutida no campo das ciências sociais e da teoria política. Para o filósofo Jürgen Habermas, a esfera pública constitui um espaço de debate no qual cidadãos discutem questões de interesse coletivo e influenciam a formação da opinião pública.

No entanto, quando determinados grupos sociais são excluídos ou marginalizados desses espaços de debate, ocorre uma limitação do próprio funcionamento democrático.

Nesse contexto, a comunicação comunitária surge como alternativa à centralização informacional e à concentração midiática. Ao permitir que a comunidades produzam e disseminem suas próprias narrativas, esses veículos ampliam a pluralidade de vozes presente na esfera pública.

Outro referencial importante encontra-se no pensamento do educador Paulo Freire, que defendia uma comunicação baseada no diálogo e na participação coletiva. Para Freire, a palavra representa instrumento de emancipação social, permitindo que  indivíduos reconheçam  sua capacidade de transformar a realidade.

Assim, a comunicação comunitária não se limita à transmissão de informações, mas constitui processo de construção coletiva de consciência social.

3 – Invisibilidade das Vítimas  e Falhas  Institucionais

A invisibilidade de determinadas narrativas sociais pode estar relacionada a diferentes fatores, incluindo desigualdades sociais, limitações institucionais e ausência de acesso aos grandes meios de comunicação.

Em muitos casos vítimas de violência ou de injustiças institucionais enfrentam obstáculos para que suas histórias sejam conhecidas e discutidas publicamente.

Essa invisibilidade não apenas dificulta o reconhecimento social dessas experiências, mas também limita a possibilidade de mobilização coletiva em torno dessas questões.

Nesse cenário, a comunicação comunitária desempenha papel importante ao oferecer espaços alternativos de visibilidade social.

A experiência relatada por Allira Lira em entrevistas e no próprio livro, demonstra que, diante das dificuldades encontradas em outros espaços institucionais, os meios de comunicação de bairro podem se tornar canais fundamentais para divulgação de narrativas sociais e para construção de debates públicos.

Segundo a autora, quando as portas institucionais permaneciam fechadas ou quando o silêncio predominava em outros espaços de comunicação, os canais comunitários ofereceram abertura para que sua voz fosse ouvida.

4 – A Comunicação de Bairro Como Espaço de Resistência Democrática

Os meios de comunicação comunitários possuem características que os diferenciam significativamente da mídia tradicional. Por estarem inseridos diretamente no cotidiano das comunidades, esses veículos tendem a refletir de forma mais direta as demandas  e preocupações locais.

Nesse sentido, a atuação do Camaragibe Agora demonstra como a comunicação de bairro pode desempenhar papel relevante na ampliação da participação cidadã.

Ao oferecer espaço para relatos, debates e denúncias, esses veículos contribuem para fortalecer a consciência  social e estimular o engajamento comunitário.

A atuação do jornalista Eli Cruz, nesse contexto, ilustra a importância do jornalismo comunitário como instrumento de mediação social entre cidadãos e o debate público.

5 – Considerações Finais

A análise da experiência relatada por Allira Lira evidencia que a comunicação comunitária pode desempenhar papel estratégico    

 na ampliação da visibilidade social e na construção de espaços democráticos de debate.

Quando determinadas narrativas encontram dificuldades de circulação nos meios tradicionais ou nas estruturas institucionais, os veículos de comunicação de bairro podem se tornar instrumentos fundamentais de expressão cidadã.

Experiências como a atuação do canal Camaragibe Agora e do jornalista Eli Cruz demonstram que a comunicação  local pode contribuir significativamente para o fortalecimento da democracia,  da participação social e da visibilidade de narrativas frequentemente silenciadas.

Referências

HABERMAS.Jürgen, mudança estrutural da esfera pública: investigações sobre uma categoria da sociedade burguesa. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.

BARROS. Maria Allira de Fátima Lira do Rêgo, O crime do inquérito policial ao tribunal do júri.  Moreno/ PE, Dissertações Editora,2025.

FREIRE. Paulo, pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro : Paz e Terra, 1987.

FREIRE.Paulo, extensão ou comunicação?Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.

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